RIS REALIZA VI FESTA REGIONAL DA COLHEITA

“A Festa boa é a festa da união, é a festa da colheita que deu em nosso sertão!”

O canto da toada ressoou nas serras da comunidade Baracho, em Sobral. Ela anunciava a chegada das comunidades para VI Festa Regional da colheita do povo camponês, que cultiva com alegria e celebra o dom da vida a partir dos frutos da terra.

A Festa regional aconteceu entre os dias 06 e 08 de julho. Retoma uma tradição antiga dos povos, e que ao longo do tempo vem se consolidando em muitas comunidades da microrregião de Sobral como festa popular, organizada e vivenciada coletivamente entre mulheres, homens e jovens. Em 2016 aconteceram em torno de 35 festas comunitárias que juntaram cerca de sete mil pessoas.

A Festa é organizada pela Rede de Intercâmbio de Sementes – RIS, motivada e apoiada pela Cáritas Diocesana de Sobral, por Movimentos Populares, Instituições e Sindicatos de Trabalhadores/as Rurais dos municípios que compõem a rede. Atualmente são 76 Casas de Sementes Comunitárias, de 11 municípios, com 2.287 sócios/as fazendo parte da RIS. Gradativamente a rede se amplia no território.

As 143 pessoas de 58 comunidades chegaram à comunidade Baracho em clima de festa e calorosamente foram acolhidas pelos/as agricultores/as locais com faixas de boas vindas. Um cenário tipicamente camponês os aguardavam. O líder comunitário e articulador da RIS – Sobral João Batista deu as boas vindas e ressaltou em sua fala a alegria da comunidade Baracho em receber os/as participantes para juntos celebrarem a colheita do povo camponês.

Para além da Festa da Colheita, a RIS refletiu com os/as agricultores/as a realidade social, política e econômica do país, afirmando que “este é um espaço alegre, mas principalmente de reflexão de mulheres, jovens e homens…” perante os retrocessos e desafios ocorridos no cenário atual.

Entendendo que a política se reflete na vida das comunidades e que neste território mulheres e homens resistem às mazelas sociais, Dona Fátima foi convidada a abrir a discussão pautada no tema da festa: Semiárido Vivo, nenhum direito a menos.

A história de Dona Fátima se passa na comunidade Cajueiro, no município de Forquilha. Situada às margens de um açude gerenciado pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca – DNOCS, ela divide a linha histórica da comunidade em três momentos: fundação da associação, fundação da Casa de Sementes e a luta em combate ao uso abusivo de agrotóxicos. Cada momento foi construído de forma coletiva e com resistência ao Estado. “É nessa luta que a gente cresce, e quem não sabia nem falar, aprende”, diz ela.

O Movimento dos Trabalhadores/as Sem Terra – MST, o Levante Popular da Juventude – LPJ, a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Ceará – FETRAECE, o Fórum pela Vida no Semiárido – FCVSA e o Movimento de Mulheres do Ceará contribuíram com uma análise de conjuntura a partir do cenário político atual. A síntese da análise:

– Nos últimos governos de Lula e Dilma, o Semiárido teve seus avanços no campo através de programas sociais e da implementação de tecnologias sociais para se conviver de forma mais digna no campo;
– O agronegócio tem avançado sobre os territórios camponeses, tomado terras, feito monocultivos, derramado venenos e enfraquecido as lutas do povo;
– O governo golpista é mais uma derrota para a classe trabalhadora e atinge diretamente a produção camponesa quando destitui o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA;
– A juventude camponesa tem sido escorraçada do campo pelo discurso desenvolvimentista e pela educação voltada para o processo de industrialização;
– As mulheres ainda são as que mais sofrem, pois para além da crise política, o machismo continua presente nas comunidades e em muitos casos nas formas de violência física ou moral;
– O problema da violência, que antes era presente nos centros urbanos, agora chega ao campo, e com o comercio ilícito de drogas;
– O movimento das Casas de Sementes representa uma saída para não depender dos programas de sementes do governo na hora de plantar;
– A soberania dos/as agricultores/as em relação às Sementes Crioulas é a luta contra o Estado e as empresas que produzem venenos, sementes híbridas e transgênicas;
– O povo camponês se torna guardião da agrobiodiversidade, garante a diversidade da produção e a segurança alimentar;
– As mulheres e jovens ganham espaço com a participação direta na agricultura camponesa a partir da inserção nas Casas de Sementes e se impõem à cultura patriarcal;

Enfim, todos os pontos motivaram os presentes para enfrentarem localmente e externamente toda forma de exclusão. E ao mesmo tempo para afirmarem o projeto camponês e de mudança de paradigma político para o campo, baseado na agroecologia.

Ato Fora Temer realizado durante a IV Festa Regional da Colheita na comunidade Baracho

Ato Fora Temer realizado durante a IV Festa Regional da Colheita na comunidade Baracho.

Ao cair da noite do dia 07, os participantes do encontro junto aos moradores da comunidade Baracho e a vizinhança se encontraram na praça local para o ato FORA TEMER. Com cartazes e palavras de ordem pronunciadas com fervor, saíram em marcha ocupando as ruas e reafirmando seu repúdio ao governo golpista instalado no país.

A Celebração da Colheita encheu a todas e todos de alegrias por estarem juntas/os. Após a celebração foi abençoado e compartilhado os alimentos trazidos por cada município e comunidade. “Nos impulsiona continuar na luta de ver a variedade de alimentos, e quanto sobra, depois que todos/as participaram do banquete da vida. Diremos, só a agricultura camponesa é capaz de reunir tantas variedades e receitas de comidas”, afirma Erivan Silva, agente da Cáritas Diocesana de Sobral e articulador da RIS.

A continuidade da Festa foi abrilhantada com as apresentações da Dança da Peneira, de quadrilhas e muito forró pé de serra.

A organização da RIS também é motivada pela troca das Sementes entre as agricultoras e agricultores. Já no dia 08 de julho foi realizada uma troca das variedades levadas para o encontro. Para o povo camponês esse gesto tem um sentimento bonito de poder partilhar a história da vida guardada em cada espécie.

A festa consolida todo um movimento que acontece há seis anos na região. Neste percurso muitas sementes foram cultivadas e multiplicadas, criando um movimento de resistência e luta pela vida, das sementes e do povo.

Por Monaiane Sá e Lívia Teixeira, comunicadoras populares e agentes Cáritas.

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