PERMANÊNCIA DA JUVENTUDE CAMPONESA NA AGRICULTURA FAMILIAR

O êxodo dos jovens que vivem nas comunidades camponesas do semiárido nordestino é um dos principais desafios enfrentados no contexto da continuidade da agricultura familiar. Diante das dificuldades para produzir no campo e de uma racionalidade que impele a buscar outras condições de vida e oportunidades de emprego nas cidades, muitos migram e interrompem o ciclo de manutenção do modo de vida camponês e da relação sustentável com a terra.

Na entrevista a seguir, Eduardo, da comunidade Areia Branca, no município de Tianguá – CE, apresenta suas experiências enquanto jovem agricultor e o contexto da juventude camponesa em sua comunidade. Aos 23 anos, trabalha atualmente como agente rural da Ematerce, atuando na assistência técnica e extensão rural com os agricultores da sua região, após ter estudado por três anos na Escola Família Agrícola Ibiapaba.

O jovem agricultor relata a importância da vivência na EFA, escola do campo que surgiu a partir do projeto Agroecologia em Rede, realizado pelos sindicatos rurais de Tianguá e de Viçosa, através do qual também chegaram os primeiros projetos de Agroecologia e de convivência com o semiárido em sua comunidade. Os questionários respondidos pelas famílias agricultoras demonstravam insatisfação de cerca de 80% dos agricultores com a educação recebida nas escolas convencionais. A partir daí, os sindicatos se inspiraram na Escola Família Agrícola Dom Fragoso, no município de Independência, e criaram a EFA Ibiapaba, que já possui duas turmas formadas.

Ao final dos três anos de estudo, os jovens devem apresentar um trabalho de conclusão com um projeto a ser aplicado na sua própria comunidade. O Projeto de Vida Familiar e Profissional do Jovem tem como objetivo engajar a família e o aluno, de modo que ele desenvolva na prática o conhecimento adquirido na escola. O projeto de Eduardo tratou de aprimorar a criação de galinhas que já fazia com seus pais, para a produção de ovos. “Começamos com um projeto pequeno e agora em 2020 ampliamos para um galpão de 15 metros, com compartimentos para criação de pintos, reprodução e postura, e eu também desenvolvi uma chocadeira. Esse projeto foi uma das formas que a gente encontrou de estar trabalhando durante o ano todo, tendo sustento para a família.

Confira a entrevista a seguir.

 

 

Você é filho de uma das primeiras famílias que trabalhou com Agroecologia quando os projetos chegaram. Como foi esse momento para você, quais foram as mudanças que você observou em você e na comunidade?

 

Primeiro, a gente recebeu a cisterna de primeira água e posterior a isso conseguimos também acessar o projeto da segunda água, que é a cisterna calçadão. Teve um tempo que meu pai fez um projeto de Agrofloresta, isso é bem presente para mim. Eu era pequeno ainda, mas eu lembro bastante como foi. A partir disso, os sindicatos de Tianguá e Viçosa se juntaram e criaram esse projeto de Agroecologia em Rede. Começaram a trabalhar com os agricultores em forma de mutirão, práticas alternativas de manejo de solo, das plantas. De início, eu não me interessava tanto, tinha outra mentalidade de sair do campo para trabalhar na cidade. Mas com o passar do tempo e com a chegada da Escola Família Agrícola na minha vida, eu acabei criando outra mentalidade da agricultura, da agroecologia. Tudo começou desse projeto de Agroecologia em Rede.

 

Como foi a experiência de estudar na Escola Família Agrícola? Qual é o papel dessa escola na construção da agroecologia?

 

Antes de entrar na EFA, eu tinha uma mentalidade de sair do campo para ir trabalhar na cidade, e com a chegada da escola eu valorizei mais o campo, vendo que a gente tem a possibilidade de trabalhar e se sustentar do campo, de forma prazerosa também. Eu digo para todo mundo que a EFA foi um divisor de águas na minha vida. Em 2014, eu ingressei na turma e fiquei até 2016, nos três anos do ensino médio. Já na primeira semana, meu pai e minha mãe notaram mudança em mim. A gente passava 15 dias na escola e o restante passava em casa, colocando em prática o que aprendia. Eu fazia as coisas com o meu pai, mas não tomava iniciativa. Lá na EFA a gente foi aprendendo a trabalhar com canteiros, com práticas alternativas da agroecologia, da agricultura sustentável. Assim que cheguei em casa a primeira coisa que fiz foi cuidar dos canteiros, e meu pai se surpreendeu com isso. Eu sou filho único, ele achou que eu não fosse me adaptar à escola, porque lá a gente passava 15 dias convivendo com pessoas diferentes, mas foi dando certo e até hoje eu não me arrependo de nada. Eu já estava trabalhando antes de entrar na EFA, saí do emprego e fui estudar lá.

 

Tem outros jovens da sua comunidade que estudaram lá?

 

Tinha mais três jovens. Um está trabalhando no Instituto Antônio Conselheiro (IAC), em Ipueiras, outro está na comunidade ainda e outra menina também está desenvolvendo os trabalhos dela com o que aprendeu na EFA, envolvida com o sindicato e tudo.

 

Como é hoje a realidade da juventude na sua comunidade?

 

Está complicada. Com a chegada da tecnologia, dos anos 2000 para cá, o que a escola convencional continua pregando é que o jovem do campo tem que ir para a cidade conseguir alguma coisa. Ir na contramão disso é muito complicado. Até hoje, para conseguir aluno para estudar na EFA é uma dificuldade muito grande, porque querem ir para a escola técnica profissionalizante.

 

Os próprios jovens não se interessam de ir para a EFA?

 

Sim, o problema é esse. Até por conta do que a escola convencional prega, de que o jovem tem que sair do campo para ir para a cidade ganhar algo. O jovem que passa por uma EFA se transforma completamente. Eu digo isso por mim e pelos meninos que estudaram comigo.

 

Quais são as condições favoráveis que existem na sua comunidade para a permanência dos jovens no campo e quais são as dificuldades para isso?

 

As condições favoráveis hoje seriam as linhas de crédito, como o PRONAF Jovem. Tem as burocracias, porque para conseguir ter acesso é muito difícil, se não tiver certificado de técnico precisa de um acompanhamento de uma instituição para poder desenvolver o projeto. Primeiro, tem que ter acesso à DAP Jovem, que é anexo à DAP dos pais, mas quando chega no banco é muito difícil conseguir ter acesso ao projeto. São poucos os que conseguem. Teve um rapaz que conseguiu, mas ele disse que passou muito tempo tentando, mais de um ano.

Um dos gargalos para o jovem continuar no campo é esse. E o outro é justamente a tecnologia, a escola convencional, até a própria comunidade pregando que o jovem tem que sair, que aquilo não leva a lugar nenhum. A minha mãe mesmo dizia que era para eu estudar para sair do campo, só que hoje ela já mudou isso também. Sabemos que podemos trabalhar no campo, de forma agroecológica, alternativa e conseguir tirar um sustento dali.

 

Falando em tecnologia… Sabemos que a juventude é um grupo social que está mais próximo dessas ferramentas atuais. Como você acha que elas poderiam contribuir para que as juventudes trabalhem pelo fortalecimento da agricultura familiar e da convivência com o semiárido?

 

Poderia utilizar de forma positiva, para ajudar na pesquisa de alternativas para o agricultor, facilitar o trabalho. Se casasse a agricultura com a tecnologia daria um resultado bem positivo, facilitaria bastante a aplicação de algum trabalho dentro da agricultura.

 

Na sua comunidade, tem muitos jovens que saíram e foram embora para outras cidades?

 

Tem bastante. Nos últimos anos diminuiu um pouco, mas antigamente, uns 10 a 20 anos atrás, quando se completava 18 anos já ia para São Paulo, trabalhavam em restaurante. Hoje já dá para trabalhar bastante lá na comunidade. Algumas vezes, os que ficaram tem até mais condições do que os que foram para lá, trabalhando na agricultura ou em outras coisas também. Mas o gargalo é muito grande. Além dos problemas para acessar as linhas de crédito, outra questão é o acesso à água e à terra. Onde tem a terra não tem água, e onde tem a água não tem a terra. Além do solo que não é muito favorável para o plantio de horta, durante o ano todo… é muito arenoso. Mas também é possível trabalhar.

 

Hoje você trabalha na Ematerce?

 

Sim, faz mais de dois anos que estou trabalhando na Ematerce. É uma bolsa de três anos que encerra em janeiro de 2021.

 

Qual é o trabalho que você faz e como está sendo essa experiência para você?

 

Está sendo uma experiência muito boa. Eu acompanho os agricultores da região de Viçosa, como agente rural, dando assistência no trabalho de extensão. Coloco em prática o que aprendi na EFA, o que é outro problema também porque a gente trabalha com agroecologia e a maioria dos agricultores faz o sistema convencional, com veneno, brocagem. Quando a gente traz alternativas eles acham estranho. É complicado, mas vem dando certo. Está sendo bem desafiador, o programa que a gente trabalha, o Agente Rural, é um desafio porque não nos dão condições de trabalho. A gente recebe uma bolsa e dela tem que tirar tudo: transporte, alimentação. A empresa não dá assistência para a gente trabalhar, aí às vezes acabamos saindo menos para o campo porque o dinheiro não dá. A gente acaba pagando para trabalhar. Nesse período de pandemia, a gente passou quase o ano inteiro sem trabalhar em campo. Outra coisa é que como são só três anos, a gente não cria vínculo com o agricultor, ele não tem confiança na gente. Quando está começando a criar confiança no técnico, que vai na casa dele, tenta ajudar no que precisa, a bolsa acaba e entra outro técnico e começa tudo de novo. Quando terminar a bolsa, se não conseguir algum emprego nessa área, de acompanhar os agricultores, é viver da agricultura mesmo, do que a gente produz em casa. A gente passou um projeto agora de criação de galinhas, que está dando resultado e a tendência é só ampliar.

 

Atualmente, quais são os principais desafios para a agricultura familiar na sua comunidade?

 

Um dos conflitos que está tendo é justamente por terra, porque tem a chegada agora dos parques eólicos. Eles estão querendo tomar as terras para colocar torres lá na região. A comunidade já está se organizando, nas associações, para entrar em acordo com a empresa para colocar as torres o mais longe possível das comunidades, mas a quantidade de vento maior é perto da comunidade, quanto mais perto melhor para eles. A poluição sonora é muito grande. Além desse conflito, tem o acesso à água. É muito difícil perfurar poço. O único olho d´água que tem lá na região não seca mas é longe das casas.

 

  • Compartilhe: