O que são?

Guardar e trocar sementes é uma prática antiga e muito presente entre agricultores e comunidades camponesas. Na colheita, uma parte da produção é armazenada para garantir a semeadura do ano seguinte. As espécies que permanecem sendo cultivadas são aquelas que possuem a resistência e adaptação ao ambiente necessárias para se transformar em uma planta saudável capaz de gerar também outras sementes e sustentar o ciclo de produção e subsistência das famílias no campo.

Essa tradição deu origem ao que os agricultores e as agricultoras denominam, com afeto, de Sementes da Paixão, da Resistência, da Gente, da Fartura, da Vida. São passadas de geração em geração e contribuem para a preservação da agrobiodiversidade no semiárido e da construção desse território como um lugar de muita fertilidade.

Dessa forma, a agricultura familiar garante uma alimentação diversificada e saudável, com plantas fortes e cultivadas sem veneno, já que a diversidade e a sua adaptação reduzem consideravelmente a ocorrência de pragas agrícolas. Além de soberania alimentar, as sementes crioulas também dão origem a espécies que fornecem material para a produção de remédios naturais, cercas vivas, madeiras etc.

E não são só os camponeses que se beneficiam dessa tradição. Os cultivos agroecológicos também produzem alimentos que são comercializados em feiras orgânicas e agroecológicas em muitas pequenas e grandes cidades do país, possibilitando uma relação direta entre consumidor e produtor na aquisição de alimentos saudáveis e sem contaminações.

Essa riqueza, no entanto, vem sendo ameaçada pelo interesse de empresas transnacionais ligadas ao agronegócio, à indústria de alimentos e redes de supermercados, associadas ao processo de modernização agrícola (a chamada Revolução Verde), iniciada na metade do século passado, e que implicou uma ofensiva de empresas que produzem e comercializam sementes que dizem ser “melhoradas”. Mas essas variedades são menos resistentes ao ataque de pragas e ocorrência de doenças, tornando os produtores dependentes do uso de pesticidas, e não têm o mesmo valor nutricional. Por isso e pela ausência de políticas públicas capazes de proteger esse patrimônio genético, alimentar e cultural, as comunidades enfrentam o risco de perder suas sementes.

No semiárido, há uma diversidade de programas, projetos e ações que valorizam o papel dos guardiões e guardiãs de sementes, estimulam a troca de conhecimentos e de sementes entre agricultores e incentivam a prática da estocagem comunitária.

Esse movimento se contrapõe à lógica da Revolução Verde, do agronegócio e, ainda, às variedades híbridas e geneticamente modificadas que são distribuídas pelo Estado ou vendidas por empresas especializadas, com pouca variedade de espécies. Valoriza as iniciativas locais e o conhecimento acumulado e disseminado por gerações pelas famílias sobre as adaptações vegetais e animais a cada ambiente, solo e clima.

É nos quintais de suas casas que as famílias fazem seus experimentos, cultivam e observam as melhores sementes e espécies, com destaque para o protagonismo das mulheres nessa tarefa e na transmissão desses saberes aos seus filhos.



  • Compartilhe: