Campanha

Caminhos possíveis para o uso sustentável da água

A Campanha Água Nossa de Cada Dia e Sementes Crioulas tem o objetivo de sensibilizar a sociedade sobre a importância das estratégias de convivência com o semiárido envolvendo as questões de acesso à Água e às Sementes para a preservação da agrobiodiversidade e para a garantia da soberania e segurança hídrica e alimentar das comunidades e famílias agricultoras no território camponês cearense.

Essas práticas se concretizam por meio de ações de estocagem e uso sustentável da água, da tradição de conservação das sementes crioulas e dos cultivos agroecológicos. Queremos visibilizar e defender a importância de uma gestão comunitária, popular e participativa dos espaços de decisão e gestão das águas e da agrobiodiversidade. Além disso, denunciar injustiças e violações de direitos, conflitos e políticas desiguais.

Trazemos, mais especificamente, experiências realizadas em território nordestino. Mas como a água e a alimentação saudável são direitos humanos e essenciais à vida, o tema alcança qualquer indivíduo no campo ou na cidade. Caso você tenha interesse em compreender, se aprofundar, discutir e compartilhar essas questões, junte-se a esta campanha!

EIXOS

Convivência e preservação

As medidas históricas de “combate à seca” se mostraram ineficazes para solucionar a escassez, a distribuição e os problemas com a qualidade da água para a população que vive no Semiárido. A noção de “convivência” vem para atender melhor a necessidade de adaptação às condições climáticas e políticas.
As tecnologias sociais de captação e armazenamento de água fazem com que, mesmo em longos períodos sem chuva, haja água para beber, cozinhar e produzir. Elas nos mostram que é possível garantir a vida no sertão quando aprendemos a conviver com o clima e a natureza em sua completude.
Para viver neste espaço e também mantê-lo vivo, é preciso dar lugar ao que já é seu por natureza: as espécies nativas, as sementes originais, selecionadas pela observação diária e atenta daquelas que se desenvolvem melhor nas condições locais. Sementes que, por sua vez, ganham vida através da Água, sem a qual nada brota. Assim a água é, também, a semente da vida. A substância que origina e compõe tudo o que é vivo. Água é Semente e Semente é Água. Uma não existe sem a outra.
Consideremos a relação de interdependência entre os elementos que compõem e mantêm a vida. A vegetação ajuda a garantir o armazenamento de água no solo e a água permite a multiplicação da vida vegetal, animal e humana.
Segurança alimentar, uso sustentável da água, preservação do meio ambiente, agroecologia, economia popular e solidária. Esses são os princípios e valores da convivência, de uma realidade vivenciada em várias comunidades do Ceará e em todo o Semiárido.

Partilha de conhecimentos

A falta de conhecimento e de valorização do bioma Caatinga – única floresta 100% brasileira e que forma cerca de 92% do território cearense – tem contribuído para uma rápida degradação da sua vegetação e solos, tornando vulneráveis os seres que nela habitam e que estão especialmente adaptados ao seu ambiente, ciclos de chuvas e clima semiárido.
A seleção e preservação das sementes crioulas é um dos aspectos que integram as estratégias de convivência com o semiárido, usadas pelas famílias agricultoras há muitas gerações para garantir a sua sobrevivência e soberania e segurança alimentar. Selecionando e guardando as sementes mais resistentes, que geram plantas saudáveis e garantem uma alimentação também saudável, além de material para cercas vivas, produção de remédios, madeira etc. Outros nomes dados às sementes, como Sementes da Paixão, da Resistência, da Gente, da Fartura, da Vida, revelam a relação não só de sobrevivência mas também de afeto dos camponeses com as sementes que os acompanham a cada ano de plantio.
É urgente dar atenção a este patrimônio biológico que não é encontrado em nenhuma outra região do mundo, e que está entre os mais ameaçados diante da degradação ambiental e das mudanças climáticas na contemporaneidade.

Direito à Água e Sementes

Falar em direito à Água e à Terra é algo que vai além da dimensão vital exclusivamente biológica e implica também sua dimensão cultural e mística, perpassando nossas formas de organização social e territorial. No semiárido, os aspectos sociais, políticos e históricos e as relações de poder que envolvem o acesso a estes bens comuns correspondem a um contexto de deficiências nas políticas públicas que garantam soluções aos problemas dos períodos cíclicos de estiagem, a aparente escassez de água e a concentração de terra e recursos.
É preciso problematizar o uso da água como mercadoria, resultado do nosso modelo de desenvolvimento econômico. Queremos expor a concentração de água para o agronegócio, às grandes indústrias energéticas, à mineração e empreendimentos turísticos. O nosso problema não é escassez, é má gestão dos recursos.
O agronegócio tem figurado como uma das principais ameaças à preservação da natureza e dos modos de vida tradicionais da agricultura familiar. Ele é abastecido com mais de 70% da água potável disponível no Brasil, utilizando técnicas de irrigação que desperdiçam, aliadas à contaminação de reservatórios superficiais e subterrâneos por uso de agrotóxicos.
As sementes transgênicas empregadas nos latifúndios do agronegócio também são uma ameaça à biodiversidade vegetal e às sementes crioulas preservadas há muitas gerações pelas famílias agricultoras, de espécies nativas resistentes e adaptadas ao ambiente.
Buscamos contribuir na promoção do acesso à informação sobre a legislação e gestão das águas e das sementes no Ceará, em defesa de um modelo mais equitativo e denunciando desigualdades.

Denúncia de conflitos

O ano de 2019 alcançou o recorde de 1.833 registros de conflitos no campo brasileiro, vitimizando trabalhadores e trabalhadoras da terra. Em disputas entre formas divergentes de uso e ocupação dos territórios, amplia-se a resistência dos camponeses, que encaram e denunciam as injustiças e violações que lhes atingem e reinventam formas de permanecer em seus territórios e semeá-los de esperança e vida.
Há gerações, camponesas e camponeses trabalham na construção e preservação de seus modos de vida, que têm na natureza a base de sua reprodução social e material. São, no entanto, formas de existir ameaçadas pelo agronegócio, pela mineração, pelos grandes projetos de geração de energia e outros empreendimentos que dificultam o acesso à terra, à água, às sementes para plantar e outros recursos, além das consequências de ações ou omissões dos governos federal, estaduais e municipais.
Alertamos para o agravamento de uma política desigual e excludente, com intensificação de processos de privatização e acirramento das disputas por água; projetos político-econômicos voltados para megaprojetos; redução de financiamento de projetos de implementação de tecnologias sociais para convivência com semiárido; contaminação dos cultivos agroecológicos por agrotóxicos e organismos transgênicos produzidos por multinacionais que detêm o monopólio da venda de sementes.
Documentar essas injustiças e conflitos é também uma ação de resistência e de fortalecimento dessas lutas, não deixando que caiam no esquecimento e endossando as denúncias e clamores de justiça bradados por camponesas e camponeses, movimentos e organizações sociais populares.



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