AUTONOMIA E MOBILIZAÇÃO ATRAVÉS DAS TECNOLOGIAS SOCIAIS

As tecnologias sociais de convivência com o semiárido transformam não somente as condições materiais das comunidades camponesas, mas sobretudo contribuem para fomentar e fortalecer a autonomia e a mobilização das famílias agricultoras em torno da luta pelos seus direitos.

Isso é o que nos relata a agricultora Gracinha, da comunidade Catingueirinha, no município de Potiretama-CE, região do Vale do Jaguaribe. Atuando como voluntária na Cáritas Diocesana de Limoeiro e como Diretora de Políticas Sociais do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR), Gracinha é uma mulher agricultora que teve sua própria vida transformada pela chegada das cisternas. Assim como ela, outras mulheres conquistaram a visibilidade e a consciência da importância de seus trabalhos na agricultura familiar através de tecnologias como as Casas de Sementes e os quintais produtivos.

Gracinha tem uma importante atuação política nos movimentos sociais, no sindicato, nas comissões e conselhos municipais. Atualmente, também contribui com a mobilização em torno da criação da Rede de Intercâmbio de Sementes (RIS) da região do Vale do Jaguaribe.

Confira a entrevista.

Você pode nos contar um pouco da sua história e do seu trabalho na agricultura familiar?

Nasci e me criei aqui, o pouco que estudei foi aqui no município e um pouco também em Limoeiro. Minha família também é toda de Catingueirinha, somos uma família bem antiga aqui, meu bisavô foi fundador dessa comunidade. Aí vem gerações e gerações na comunidade. Mora todo mundo aqui. Eu nasci na agricultura, com meus pais, casei e continuei na agricultura, e também era dona de casa. Com a chegada das cisternas, eu comecei a me envolver nas comissões municipais, contribuindo para que as cisternas pudessem beneficiar todas as pessoas da comunidade, e fui entrando nos movimentos. Tem uns 20 anos que contribuo com os movimentos sociais como voluntária e minha vida mudou através das cisternas! Porque eu era muito de viver dentro de casa, muito tímida, ficava na reunião lá atrás pra não falar, com vergonha! Através dos movimentos sociais eu comecei a participar, me envolver com as comunidades nas lutas, com as comissões municipais. Até hoje, há mais de 20 anos, estou nessas lutas juntamente com as entidades que nos procuram, como a Cáritas, os Sindicatos. Hoje eu estou na diretoria do Sindicato, na pasta da política social. Como eu me envolvo muito com os movimentos sociais, então essa é a minha pasta lá no sindicato.

Como foi essa chegada das cisternas na sua comunidade?

A cisterna chegou aqui em 2003, no município de Potiretama. Na época, a gente conseguiu só uma cisterna, que foi para a casa de Antônio Piloto, que mora na Caatinga Grande. Essa é uma região que tem muita dificuldade de água. Fizemos reunião com as famílias lá e elas escolheram as pessoas que tinham mais carência, que não tinham condições de fazer uma cisterna. Então, chegou essa primeira cisterna e através dela a gente deu continuidade à luta, participando dos debates, dos fóruns de convivência com o semiárido, onde a gente levava as demandas de cisternas para as outras comunidades. Quando chegou aqui na nossa comunidade, a gente era um povo que não sabia dos nossos direitos, era tudo medroso. A gente teve sempre aquela coisa das comunidades viverem cheias de coronéis, não tinham muita voz. A chegada da cisterna trouxe não só a água pra gente, nossa vida mudou muito com o esclarecimento e aprendemos a lutar por nossos direitos. Aí também fundamos a Associação Comunitária, começamos a nos organizar. Antes era cada um por si, não tinha muito essa organização. Hoje temos essa associação e já temos muitas conquistas.

E como foi essa mudança na sua vida depois da chegada das cisternas?

Mudou porque hoje eu já perdi um pouco da timidez e aprendi a ir atrás das conquistas pras nossas comunidades. Eu era uma pessoa que não saía nem de casa, trabalhando com meu esposo e cuidando dos filhos. Através dessa mudança, eu também estudei mais um pouquinho, fiz alguns cursos. Fiz curso de agricultura orgânica no PRONATEC e várias oficinas. A vida mudou totalmente!

Que outras tecnologias sociais existem na sua comunidade?

A gente tem a Casa de Sementes, cisterna calçadão, barreiro de trincheira, barraginha, tanque de pedra, o BioÁgua. Temos o Mini Museu das comunidades, que é uma luta das juventudes e ainda está um pouco parado devido às dificuldades, mas é uma luta. Temos uma Semearte que também foi uma luta dos jovens, onde eles fazem sublimação em camisas. Ultimamente, depois da pandemia, eles aderiram às máscaras, estão trabalhando muito. Temos os quintais produtivos, aqui e em outras comunidades do município.

Além das mudanças na sua própria vida, o que mudou na comunidade depois da chegada das cisternas e de outras tecnologias sociais de convivência com o semiárido?

A comunidade hoje trabalha junto, se une, luta pelo que quer. Ainda essa semana, a gente se mobilizou pelas estradas da entrada da comunidade. A gente sabe que não é papel nosso e sim do poder público. Mas como não tinham ajeitado, a gente se mobilizou e quando já estava todo mundo junto, chegaram as máquinas da prefeitura e ajeitaram. A gente aprendeu muito a lutar pelo que a gente quer, e quando o poder público não faz, a gente vai fazer e, às vezes, no que a gente tá fazendo, eles sentem que a gente tá na luta e vem e fazem. Ou seja, a comunidade mudou demais, porque antes a gente não tinha essa coragem e hoje temos, de lutar e enfrentar os poderosos na luta.

E por que você acha que isso mudou? Que agora se tem mais essa coragem e essa luta?

As pessoas participaram de muitas oficinas, capacitações, e foram entendendo. Antes, se achava que a gente não podia lutar, porque era favor e não direito… E através dessas políticas públicas, as pessoas vão botando na consciência que tudo que vem é nosso e nós temos que lutar. Aprendemos a ter consciência política.

E para as mulheres? Principalmente, com relação às Casas de Sementes, onde é muito importante o protagonismo delas na preservação das sementes, em toda a história da agricultura. Então, na sua comunidade, como é a participação delas nas Casas de Sementes e o que mudou na vida delas?

Nós temos 20 agricultoras da comunidade que são associadas à Casa de Sementes. Nós formamos um grupo, pelo sindicato, onde nos reunimos, levamos nossas pautas. A Casa de Sementes também libertou as mulheres, para elas verem seu papel na agricultura. A maioria achava que não era nem agricultora, que só “ajudava” na agricultura. E através da casa de sementes, dos debates, das rodas de conversas, todas as mulheres hoje já têm a consciência de que elas são agricultoras. E também têm essa consciência da preservação, das sementes sem veneno, de que são elas que cozinham e em casa cuidam das sementes, tanto para o alimento quanto para o plantio. Elas são muito participativas aqui na comunidade. Algumas ainda têm dificuldade, as que são mães com filhos pequenos ou outros afazeres, que ainda têm dificuldade de ir para reunião fora. Mas fica claro que hoje as mulheres têm mais autonomia. A gente vê pela fala, pelo jeito das ações dentro da comunidade.

Por outro lado, atualmente quais são as dificuldades para conseguir manter essas tecnologias ou para conquistar mais?

Uma das dificuldades que vimos nesse período de sete anos de seca, pra gente manter as tecnologias, os quintais, as casas de sementes, foi a falta d’água. E outras dificuldades que a gente ainda tem é com a juventude, que não se envolve muito na agricultura. Estão saindo muitos jovens pra trabalhar fora. A sorte da nossa comunidade é que tem empresários em São Paulo que são filhos daqui, têm as suas lojas lá, e esses meninos que vão já têm um trabalho lá. Mas temos essa dificuldade, de estar perdendo a juventude pra ir pra fora. Aí a agricultura já enfraquece, nem todos os jovens querem mais se envolver, veem a dificuldade que tem. Se bem que ultimamente a gente tá vendo que não é bem mais assim, a gente tá vendo que as sementes, os grãos que a gente produz estão tendo mais valor. A gente tem essa dificuldade de manter as pessoas na comunidade para levar essa agricultura a frente. Temos que continuar na luta, nas discussões dentro das casas de semente, da associação.

E como é o seu trabalho como diretora no Sindicato? Quais são as dificuldades hoje?

O Sindicato, hoje, está tendo várias dificuldades. Primeiro, a gente vê que as pessoas ainda vão muito pela fala dos gestores, dos governos, que estão deixando muito a desejar em suas falas, em seus discursos. A gente tem uma luta de manter nossos associados, de estar conversando com eles, mostrando a importância de ter uma entidade para nos representar no município. Outra dificuldade é que nós perdemos toda a safra de castanha, todo cajueiral, com esses sete anos de seca e a mosca branca. E estamos na luta para conseguir que esses pequenos produtores possam replantar os cajueiros em consórcio com outras plantas, pra que possa resistir à mosca branca ou qualquer outra praga. A gente sabe que não é só por causa da seca, também tem o desequilíbrio, porque as pessoas plantaram só uma cultura e a gente sabe que quando vem a praga toma tudo. Também estamos na luta de fazer capacitações com os agricultores para que eles não usem muito veneno. A gente descobriu que os que estão plantando os cajueiros estão usando muito veneno, matando os pássaros, as abelhas… Estamos tentando que não se use o veneno, e que se façam os defensivos naturais. Como a gente já tem uma experiência com os defensivos naturais, podemos ajudar os agricultores. E estamos também na luta por água para produção. No período do verão, só temos as tecnologias de convivência com o semiárido. A gente já entrou em outras lutas, o sindicato tem outras conquistas juntamente com as entidades, os assentamentos. Só que a gente está com dificuldade de manter a própria entidade também. Acho que toda instituição… Nós estamos todos vivendo um momento muito difícil.

A região do Vale do Jaguaribe enfrenta muitos conflitos socioambientais, principalmente em torno do acesso à água. Como está na região da sua comunidade, hoje? Há algum conflito latente?

Hoje, a gente está numa luta na região da Caatinga Grande, que tem mais dificuldade com água. Estamos na luta para escavar os poços. O aquífero Jandaíra-Açu passa por baixo das comunidades e elas não têm acesso à água. Já teve ocupações, paramos as máquinas no local… Nesse momento, dizem que estão fazendo uma entrada de água para que chegue a adutora da Barragem do Figueiredo. Porque os poços não conseguiram fazer, passaram uns seis meses e não conseguiram. A máquina entupia, caía o ferro e os canos dentro… Até agora estão parados.

Na nossa comunidade, os relógios de medição já estão tudo na nossa porta. A nossa luta é para que de fato façam a ligação, pra gente receber a água da Barragem do Figueiredo. A adutora já está pronta aqui do lado, a caixa que vai receber também. Ainda tem outras comunidades que vão ficar fora da cobertura, e vai ser outra luta pra gente dar continuidade.

Aqui já tivemos muitos conflitos. Primeiro, foram os da Barragem, que atingiu meio mundo de comunidades. Receberam as casas e as indenizações com muita luta, muita ocupação, muita briga. Hoje, falta receberem a água da barragem. Ela não pode ir só para o agronegócio. Com a chegada dessa água através da adutora, nossas cisternas e as outras tecnologias de convivência tem mais apoio pra que a gente possa produzir mais.

Para você, qual é a maior riqueza do semiárido?

Para mim, a maior riqueza aqui no nosso semiárido foram as tecnologias de convivência, porque elas não deixaram só o alimento, mas uma mente mais esclarecida. A primeira e melhor tecnologia foi a gente ficar mais esclarecido, termos essa consciência do nosso direito de lutar por uma vida melhor, e ter essa união pelo bem comum dentro da comunidade. As entidades executoras dessas tecnologias ajudaram demais essas comunidades que eram esquecidas. E, hoje, depois das tecnologias, essas comunidades já sabem lutar pelo que querem.

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